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ARTIGOS DE OPINIÃO

Um Rumo para o Afeganistão

Embaixador Thomas Stephenson
Diário de Notícias
3 de Março de 2009

Passaram oito anos desde que iniciámos a guerra contra os extremistas islâmicos e os terroristas no Afeganistão. Como saberão os que nos precederam, o Afeganistão é uma área extraordinariamente difícil para a realização de qualquer operação militar: o terreno é irregular; as complexidades culturais e tribais tornam difícil o estabelecimento de alianças locais; e a falta de infra-estruturas torna a logística militar quase impossível em determinadas zonas. A eliminação do domínio e controlo talibã deu lugar a um vazio de governação; a corrupção era e permanece elevadíssima; e o negócio do ópio domina o comércio, pervertendo a economia.

Como se tudo isto não bastasse, o Paquistão junta-lhe mais uma camada de complexidade. As áreas tribais fora de controlo na fronteira do Afeganistão são bastiões e refúgio ideais para os extremistas e os terroristas.

O desafio que se coloca à OTAN é que qualquer êxito no Afeganistão requer sucesso no Paquistão. E este, por seu turno, necessita de muito mais do que meras vitórias no campo de batalha. Temos que ajudar ambos os países a reforçar a capacidade dos seus governos locais e centrais, e ajudar esses governos a transmitir às suas populações uma visão plausível de uma vida melhor que elas possam abraçar. Neste contexto, a nova Administração dos EUA está presentemente a levar a cabo uma revisão minuciosa da situação militar, civil, e política no Afeganistão e no Paquistão. O Presidente Obama nomeou como seu enviado especial para a região um experiente diplomata, o Embaixador Richard Holbrooke.

Muito está por fazer no Afeganistão e é provável que a situação piore antes de melhorar. Mas não ignoremos que se têm registado progressos substanciais no Afeganistão em múltiplas frentes:

O Afeganistão é hoje uma democracia funcional, que já testemunhou diversos actos eleitorais legítimos e pacíficos, desde que os talibã foram afastados do poder. Está marcada para Agosto uma eleição importantíssima, que muito nos dirá sobre a forma como o povo afegão vê o seu governo e o papel da OTAN e da comunidade internacional na sua luta por uma vida melhor. Nos últimos sete anos, áreas como a economia, infraestruturas, sistema de saúde e de educação - sobretudo das mulheres - deram grandes passos. A polícia e o exército afegãos foram significativamente reestruturados. O tráfico de narcóticos e a corrupção continuam a ser os maiores desafios, mas genericamente registou-se uma grande evolução.

Há ano e meio, muitos julgavam que os EUA estavam a perder a guerra no Iraque. A resposta do Presidente Bush consistiu em proceder a uma sólida revisão das estratégias, em rever o plano com base nessa análise, e em disponibilizar os recursos necessários à execução do novo plano. Tal como no Iraque, o futuro no Afeganistão vai requerer forte coragem nas convicções e um empenhamento fundamental. A nossa experiência no Iraque ensinou-nos que temos que estar dispostos a fazer abordagens variadas: desenvolver novas alianças com tribos e grupos étnicos variados; estar disponíveis para um reforço substancial de tropas e meios militares; e reestruturar a nossa rede e capacidade diplomática e humanitária.

A nova estratégia para o Iraque está a dar frutos. Sendo ainda muito cedo para declarar vitória no Iraque, certo é que a violência foi drasticamente reduzida em muitas áreas e as eleições provinciais de 31 de Janeiro decorreram com êxito e muito pouca violência.

É claro que existem diferenças entre o Afeganistão e ao Iraque, sendo a mais significativa de todas elas o papel do Paquistão. Mas o princípio subjacente é o mesmo: precisamos de analisar as fraquezas para procedermos aos devidos ajustes.

A Administração Obama dá todos os sinais de estar preparada para fazer os compromissos necessários. Segundo anunciou a Casa Branca esta semana, nos próximos meses mais 17.000 soldados irão para o Afeganistão e outros reforços poderão seguir-se, uma vez concluída a revisão militar.

A OTAN irá certamente pedir aos membros da aliança, Portugal incluído, que reforcem o seu compromisso, nomeadamente com mais tropas. Como um dos primeiros países participantes na Operação Liberdade Duradoura, um novo empenho português na Força de Reacção Rápida (FRR) constituiria um importante contributo.

São necessários mais recursos para treinar as forças de segurança do Afeganistão e mais equipas provinciais de reconstrução – as equipas civis e militares, que garantem a segurança e governação em cada uma das províncias afegãs. Talvez elementos da GNR pudessem ser enviados para ajudar a treinar a polícia afegã. Sabemos que muitos estão cansados desta luta em terras longínquas. Mas neste momento crucial, a OTAN precisa efectivamente de maior apoio de Portugal e de outros aliados.

Quando começou este chamado “surge” no Iraque, o Presidente Bush previu acertadamente que a situação se iria agravar, antes de poder melhorar. O Presidente Obama dirá provavelmente o mesmo acerca do futuro do Afeganistão. Que ninguém duvide: seremos bem sucedidos. Mas para que tal aconteça, temos que trabalhar em conjunto, recordando-nos de que a noite é mais escura imediatamente antes do amanhecer.

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